- Contexto e situação atual
Desde o início de setembro, o Estado de São Paulo registrou quase 200 notificações e sete mortes confirmadas por intoxicação causada por metanol presente em bebidas destiladas adulteradas.
O caso levou o Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE) e o Centro de Vigilância Sanitária (CVS) a emitirem alerta a todos os profissionais de saúde — incluindo os farmacêuticos — para que reforcem ações de prevenção, orientação e encaminhamento adequado dos casos suspeitos.
O metanol, usado de forma ilegal para adulterar bebidas alcoólicas, é altamente tóxico e potencialmente fatal, mesmo em pequenas quantidades.
Sua presença não pode ser identificada por cor, odor ou sabor, e só é detectável por análise laboratorial.
- Por que o metanol é tão perigoso
O metanol pode ser utilizado por falsificadores para simular o efeito etílico do álcool comum (etanol), sem alterar o sabor da bebida, elevando o lucro criminosamente.
Quando ingerido, o organismo transforma o metanol em formaldeído e ácido fórmico, substâncias que causam lesões no sistema nervoso central e no nervo óptico, podendo levar à cegueira irreversível ou morte.
- Principais sintomas e sinais clínicos
Até 6 horas após a ingestão:
• Sonolência, tontura, dor abdominal, náuseas, vômitos, cefaleia, taquicardia e confusão mental.
Entre 6 e 24 horas:
• Visão turva, fotofobia, manchas na visão (“escotomas”), dilatação das pupilas, perda da visão das cores, convulsões e coma.
Casos graves:
• Cegueira permanente, acidose metabólica severa, choque, pancreatite, insuficiência renal e alterações neurológicas graves.
Atenção: os sintomas iniciais podem se confundir com os de uma embriaguez comum, o que retarda o diagnóstico e agrava o quadro clínico.
- Conduta do farmacêutico diante de casos suspeitos
Segundo o CRF-SP, o farmacêutico deve atuar de forma técnica, ética e preventiva:
• Realizar anamnese rápida: identificar sintomas, origem e relato de ingestão de bebidas suspeitas;
• Encaminhar imediatamente o paciente para unidade de pronto-atendimento;
• Evitar qualquer tentativa de tratamento local — o tempo é fator crítico para a recuperação;
• Registrar o caso e orientar familiares a buscar orientação junto ao CIATox (0800 722 6001);
• Alertar sobre o risco de subnotificação, já que muitos casos leves podem não ser reportados.
- Tratamento médico e medidas oficiais
O tratamento deve ser hospitalar e especializado, incluindo:
• Gasometria arterial, exames de função renal e hepática, e avaliação oftalmológica;
• Suporte básico de vida, correção da acidose metabólica e hemodiálise nos casos graves;
• Uso do antídoto fomepizol – recentemente importado pelo Ministério da Saúde – ou etanol farmacêutico, em centros de referência do SUS.
Observação: o fomepizol impede a formação dos metabólitos tóxicos e é o tratamento mais eficaz, devendo ser administrado exclusivamente por profissionais médicos treinados.
- Orientações práticas para as farmácias
As farmácias têm papel estratégico como primeiro ponto de escuta e acolhimento da população.
A ABCFARMA recomenda as seguintes medidas de orientação e prevenção:
• Educação em saúde: alertar sobre os riscos de bebidas de procedência duvidosa;
• Informação clara: explicar que o metanol não é perceptível ao paladar ou olfato;
• Escuta qualificada: valorizar relatos de sintomas após consumo de bebidas suspeitas;
• Triagem segura: orientar busca imediata por atendimento médico;
• Treinamento de equipe: capacitar balconistas e atendentes para reconhecer sinais de alerta;
• Contato com o CIATox: para instruções e registro de suspeitas de intoxicação;
• Encaminhamento emergencial (Ligue 192): em casos de alteração visual, respiração acelerada, confusão, convulsão ou sonolência intensa.
- Considerações finais
Com mais de 95 mil farmácias no Brasil, o varejo farmacêutico é uma das principais portas de entrada do sistema de saúde.
A atuação vigilante e orientadora dos farmacêuticos é essencial para detectar precocemente casos suspeitos, reduzir riscos de morte e fortalecer o papel das farmácias como unidades de cuidado e proteção da população.
Farmácia é saúde. Prevenir é salvar vidas.
Elaboração:
Departamento Técnico e Regulatórios – ABCFARMA
Apoio editorial: jornalista Celso Arnaldo
Fontes: CRF-SP, CVE, CVS, Ministério da Saúde
Contato técnico: regulatorio@abcfarma.org.br