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Genéricos – Mais saúde, menos custo

Ao completar 20 anos no Brasil, os genéricos confirmam sua posição como motor de crescimento da indústria farmacêutica no mercado doméstico – e como principal instrumento de ampliação do acesso a medicamentos no país. Telma Salles, presidente da PróGenéricos (Associação Brasileira das Indústrias de Medicamentos Genéricos), analisa os números do primeiro semestre – e o quanto essa classe de medicamentos ainda pode crescer nas farmácias brasileiras.

Na ponta do lápis, as vendas de genéricos (nada menos que 719,5 milhões de unidades no período) cresceram 6,3% no primeiro semestre deste ano – puxando, mais uma vez, o resultado do setor farmacêutico, que enfrenta um ano difícil. De cada 10 medicamentos prescritos no país, seis são genéricos – o que aponta para o crescimento da confiança nos genéricos também entre os médicos. Os genéricos fecharam o semestre com 34,07% de participação do mercado, em unidades – melhor índice da série histórica desde que eles efetivamente chegaram ao mercado, no ano 2000. Esses números contrastam com os demais segmentos: no mesmo intervalo, as vendas de medicamentos de referência, ou inovadores, registram queda de 0,20% no comparativo com o ano anterior. Os similares cresceram 2,93%. Mas o número que Telma Salles destaca é ainda mais impressionante: a economia proporcionada pelos genéricos aos consumidores brasileiros bate a marca de R$ 138 bilhões em 20 anos. “Os resultados do semestre mostram que os genéricos estão cumprindo seu papel histórico de viabilizar o acesso dos consumidores a medicamentos no país”, resume Telma Salles, a principal executiva do segmento no país. Ela atua nos genéricos desde o ano 2000, quando trabalhava na Sandoz, uma das pioneiras no mercado e a maior empresa do segmento na Alemanha. Há sete anos ela preside a PróGenéricos. Atualmente, 120 laboratórios fabricam medicamentos genéricos no país. A PróGenéricos reúne os 17 principais.

Nesses 20 anos, os genéricos têm crescido sistematicamente: 720 milhões de unidades vendidas neste semestre. Esses números mostram o quê?
Um avanço contínuo que está se consolidando consistentemente. O que vemos é a confiança cada vez maior da população. Estudos mostram que os médicos cada vez mais prescrevem genéricos. Das 20 moléculas mais prescritas, 15 já são genéricos. E dos 10 medicamentos mais prescritos, seis são genéricos. Isso é confiança.

Até onde os genéricos podem chegar?
Até onde se chegou nos Estados Unidos – 80%. Mas para isso seria preciso mudar o formato do nosso mercado farmacêutico – que hoje é composto por medicamentos de referência, genéricos e similares – estes podem ser de prescrição e sem prescrição. É um formato único, porque em muitos países o mercado farmacêutico é dividido entre referência e genéricos – estes são lançados automaticamente quando vencem as patentes. Aqui, quando terminam as patentes, os laboratórios podem – depois de feitos os devidos testes de bioequivalência – colocar uma outra marca no remédio que só existia como referência. Isso dá ao mercado brasileiro um perfil sem paralelo na maioria dos países.

Os genéricos, a seu ver, já venceram as resistências iniciais?
Todo medicamento brasileiro com registro de genérico tem eficácia terapêutica comprovada – e esse conceito foi sendo formado ao longo desses 20 anos. Ainda há médicos que preferem genéricos de tais laboratórios – e isso é aceitável. Mas parece ter se consolidada a ideia de que os medicamentos genéricos são seguros e eficazes, com eventuais efeitos adversos rigorosamente iguais aos dos remédios de referência. Por isso, a prescrição de genéricos tem aumentado ano a ano. E parece estar ficando claro que genérico não é uma forma de produzir medicamentos – mas de comercializar. Empresas de marca têm seus próprios genéricos, rigorosamente iguais aos de referência que lhes deram origem. A Sanofi-Aventis produz a Novalgina – não é razoável imaginar que ele faria um remédio pior quando vier a produzir o genérico da dipirona. De novo: ter um genérico em seu protfólio é ter uma forma diferente de comercializar – não de produzir.

Como é obtido esse número impressionante – uma economia de 138 bilhões de reais para os brasileiros desde que os genéricos chegaram ao mercado?
Simples. Pegamos remédios de referência e comparamos os preços de seus respectivos genéricos. Se os genéricos não existissem, quanto os brasileiros teriam gasto a mais para adquirir esses medicamentos? E essa cifra é resultado do cálculo utilizando o percentual oficial de 35% de diferença de preço. Com os descontos praticados hoje no balcão, na média 60%, essa quantia seria até três vezes maior.

Por que tanta diferença, então, se os meios de produção são os mesmos?
Os medicamentos de referência têm outros custos e investimentos – como propaganda médica, para alcançar um outro nicho de mercado. Genéricos não fazem propaganda médica direta.

Quantos princípios ativos já têm versão genérica?
Temos hoje 3.870 de registros em mais de 20 mil apresentações e cerca de 580 princípios ativos.

Ainda faltam muitos?
Faltam alguns na medida em que ainda existem patentes a vencer e a replicar. O processo poderia ser mais rápido não fosse a morosidade do INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial), que agora lançou um plano para combater o BackLog (atraso burocrático) que nos dá uma expectativa muito positiva de resultados concretos. Hoje o INPI tem poucos examinadores e a fila ainda é grande – 10 a 12 anos. A Anvisa tem, no limite, por lei, um ano para examinar – e eventuais pedidos complementares de exame podem fazer demorar um pouco mais. Mas, felizmente, a Anvisa prioriza genéricos inéditos com um prazo de 15 a 20 dias – e em três meses, no máximo, sai o registro. Se for inédito, reforço.

E ainda há muitos nessa condição para chegarem ao mercado?
Sim, sobretudo no segmento dos biossimilares, feitos a partir de organismos vivos. Mas não muitas, porque mesmo a indústria mundial não tem conseguido lançar medicamentos novos com o mesmo ritmo, porque as pesquisas hoje são mais demoradas, com fases mais longas e exigentes. A tecnologia faz isso – exige estudos mais rebuscados.

Os 17 associados da PróGenéricos respondem hoje por qual parcela do mercado?
Entre 85 e 87%, dependendo do mês. Do nosso portfólio, 12 empresas são líderes de mercado.

O que os associados da PróGenéricos recebem como pacote de vantagens?
Primeiro, o acompanhamento permanente do mercado de genéricos, com viagens frequentes a Brasília para fortalecimento das políticas públicas. Somos a voz do setor uma associação com uma chancela muito positiva que protege os genéricos quando eles são fragilizados. Temos um respeito muito grande por parte do governo e cuidamos muito da área de patentes, sempre à frente. Atuamos não só nessa área, como na regulatória e na tributária. Conseguimos, há três anos, a redução do ICMS para os genéricos em São Paulo – de 18%, no resto do país, para 12%. O que queremos é o fortalecimento do mercado farmacêutico.

O que a PróGenéricos acha da possibilidade da venda de MIPs em supermercados?
São poucos os genéricos na categoria MIP. Mas só temos uma posição clara nesse caso: a dispensação de medicamentos tem que ser feita por profissional adequado, em ambiente propício à orientação, para tirar dúvidas do consumidor – sobretudo no campo das interações medicamentosas. É preciso haver isonomia, sempre. Se na farmácia se exige um farmacêutico responsável, em qualquer outro cenário em que se vendem medicamentos tem que ser assim.

Na época em que surgiram os genéricos, muitos donos de farmácia temeram por uma redução em sua margem de lucro, justamente pela redução dos preços dos medicamentos. Isso ocorreu?
As farmácias e o mercado em geral só ganharam com a chagada dos genéricos. O parque industrial se ampliou, dando musculatura para as empresas investirem em inovações incrementais e radicais, além de fazer parcerias. E observe o atual número de farmácias. Quando o preço de um medicamento abaixa, o volume de vendas aumenta – e os genéricos impulsionam esse volume. É um círculo virtuoso.