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O mito da carência de vitamina D

*Por János Valery Gyuricza

Atualmente estão mais comuns do que deveriam os pedidos médicos para os exames de vitamina D e as receitas médicas que prescrevem a suplementação dessa vitamina, porém corre-se perigo! Se pensarmos em um país tropical como o Brasil, em que durante todo o ano a exposição solar é suficiente – principal fonte de Vitamina D natural – parece ser um exagero tantos pedidos de exames e prescrições médicas. A fim de prevenir problemas obscuros relacionados ao ‘envelhecimento celular’ e doenças auto imunes, além de ‘enfraquecimento dos ossos’, muitos médicos receitam altas doses de vitaminas D aos seus pacientes. Mas será que é necessário?

É comprovado que a carência desta vitamina pode prejudicar a saúde de uma pessoa, porém o excesso dela também pode causar danos. Considerada um pré-hormônio, a vitamina D apresenta papel crucial na regulação do cálcio no organismo e, consequentemente, na saúde óssea. Mas, se a falta dela pode trazer problemas, as superdosagens também podem apresentar sérios riscos à saúde do organismo quando usada de maneira desnecessária e muitas vezes em excesso. A hipercalcemia, ou seja, o excesso de cálcio no sangue, pode levar a pedras nos rins e a perda da função deste órgão. A hipervitaminose D também pode, paradoxalmente, prejudicar a saúde dos ossos, pois pode induzir ao desequilíbrio da renovação dos tecidos ósseos, entre outros problemas.

Curiosamente é possível observar uma dicotomia entre pedidos de exames e suplementação da vitamina D em dois países que fazem divisa, Canadá e EUA, e que compartilham de muitas características comuns.

Nos EUA, há 20 anos (em 2000) 4 a cada mil adultos norte-americanos com mais de 70 anos declararam tomar o suplemento diário de 25mg de vitamina D. Desde então, o volume de testes de vitamina D cresceu 83 vezes entre os anos de 2000 até 2010, somente nos EUA, impulsionando o consumo deste suplemento. Embora no Brasil não tenhamos dados tão refinados, e sensível na prática clínica trajetória semelhante.

Já no Canadá, um estudo realizado por diversos especialistas da área da saúde sob recomendação da Choosing Wisely indicou que a cidade de Alberta diminuiu cerca de 91,4% os testes para medir a deficiência de vitamina D após a implementação do formulário eletrônico. Este formulário exige que os médicos que solicitam exames de vitamina D, comprovem que o paciente esteja em tratamento ou tenha alguma doença metabólica, óssea, níveis anormais de cálcio no sangue, síndrome de má absorção, doença renal crônica ou doença hepática crônica, ou seja, indicação precisa para o uso da suplementação de vitamina D. Este estudo sugere que na prática, boa parte dos médicos canadenses não tinha uma real necessidade pela realização deste exame. Novamente, não temos dados tão refinados no Brasil, mas é pouco provável que tenhamos práticas clínicas muito diferentes.

Aqui no Brasil, pesquisa recentes da Universidade Estadual Paulista (Unesp) sobre o papel da vitamina D no sistema cardiovascular aponta que em experimentos sobre o déficit de vitamina D em ratos, apareceram alterações importantes na forma e na função do coração, o que reforça a importância da substância para esse órgão. Porém outro estudo aponta que doses crescentes de vitamina D (doses que não provocavam riscos ou toxicidade) foram injetadas em ratos levaram ao aparecimento de hipertensão e alterações na aorta, aumento do músculo cardíaco e piora da função do coração. Ou seja, o equilíbrio entre falta e excesso de vitamina D é muito mais complexo do que nos parece a primeira vista e estes dados revelam o impacto da vitamina no sistema cardiovascular, endossando a preocupação com as consequências de doses altas nesse contexto, por exemplo.

Então é importante determinar quem possivelmente precisará realizar exames e fazer suplementação desta vitamina:

• Pessoas acima dos 60 anos

• Sujeitos que sofrem quedas e fraturas recorrentes

• Gestantes e lactantes

• Indivíduos com osteoporose e doenças osteometabólicas, tais como raquitismo e osteomalácia

• Portadores de doença renal crônica

• Situações de má absorção de nutrientes, como quem tem doença inflamatória intestinal ou fez cirurgia bariátrica

• Pessoas que fazem uso de medicações que podem interferir com a vitamina D: antirretrovirais, corticoides, anticonvulsivantes…

• Pacientes com câncer

• Presença de sarcopenia (perda de massa e força muscular)

• Diabéticos

• Indivíduos com obesidade

• Pessoas com pele escura, que não se expõem ao sol ou possuem contraindicação a essa exposição

• Pacientes com insuficiência cardíaca

Uma vida com hábitos saudáveis, que incluem uma alimentação diversa, atividade física frequente e exposição moderada ao sol é suficiente para a grande maioria das pessoas manter níveis adequados de vitamina D, ossos fortes, corpos saudáveis, evitar exames e suplementações desnecessárias. Muitas vezes menos é mais, também no âmbito da saúde.

* János Valery Gyuricza é Head de Medicina na Cuidas , startup que conecta empresas com médicos e enfermeiros para atendimentos no próprio local de trabalho. Médico formado pela Universidade de São Paulo, com residência em Medicina de Família e Comunidade no Hospital das Clínicas, na mesma universidade. É doutorando pelo Departamento de Medicina Preventiva (USP), em parceria com a Research Unit for General Practice da Universidade de Copenhague.