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20 de janeiro: Dia do Farmacêutico

Por Dr. Marcos Machado

Este ano, o Conselho Regional de Farmácia de São Paulo entregou seu registro de número 100.000 – evidentemente, muitos já não estão atuantes. Mas os 70 mil farmacêuticos ativos no Estado de São Paulo dão uma ideia da influência exercida pelo CRF-SP. Desde 2018 presidido pelo Dr. Marcos Machado, farmacêutico-bioquímico especializado em análises clínicas, o Conselho tem sido fortemente presente em todos os temas que mobilizam a profissão – que, como se sabe, tem tudo a ver com o dia a dia e o sucesso das farmácias. No mês em que se celebra, mais precisamente dia 20, o Dia do Farmacêutico, o Dr. Marcos Machado passa em revista a atuação do farmacêutico nesse ano excepcional

Como está o mercado para os farmacêuticos, independentemente da pandemia? Sem desemprego?

Na profissão farmacêutica não tem havido falta de empregos. É uma profissão com diversos campos de atuação. O ramo de comércio farmacêutico emprega um grande numero de colegas e neste ano de pandemia, atuando de portas abertas desde o primeiro dia, isso não se alterou. Além do setor de varejo, outras áreas de atuação farmacêutica cresceram este ano – como o segmento hospitalar, de logística, saúde pública, laboratórios, etc. Não há, portanto, dificuldade de emprego. 

Que balanço você faria, do ponto de vista dos farmacêuticos, desse período tão excepcional da Covid-19?

Um ano, evidentemente, muito difícil – marcado por insegurança, incertezas e medos. As farmácias e os hospitais foram os dois únicos estabelecimentos de saúde que nunca fecharam na pandemia. Os colegas ficaram à frente desde o primeiro dia, atendendo a população. Não fecharam as portas, não viraram as costas à sociedade. Portanto, foi um ano, apesar de difícil, de consolidação da imagem do farmacêutico e dos atendentes como profissionais de saúde. Daqui a alguns anos, quando lembrarmos desse período, os farmacêuticos e os demais profissionais de farmácia terão o orgulho de dizer que estávamos à frente desse drama para ajudar a sociedade. 

E isso vai mudar o dia a dia das farmácias daqui para frente?

Sem dúvida. A farmácia já não pode ser definida como um estabelecimento comercial. Ficou muito nítido, na pandemia, que a farmácia é um estabelecimento de saúde, que não recebe unicamente clientes, mas pacientes. E ela precisa estar preparada para isso – não apenas o farmacêutico, mas todos os seus colaboradores. Temos que pensar a farmácia não mais como um ponto de venda, mas como uma porta da saúde – presente em bairros e cidades onde não existe sequer um posto UBS. A pandemia da Covid-19 vai terminar com uma vacina, em alguns meses. Mas outras pandemias poderão vir a ocorrer. E a farmácia terá de estar, e vai estar, pronta para lidar com elas.

Essa “subida de ranking” prevê a formação mais avançada do farmacêutico, para que ele possa ser um educador de saúde. Isso permite, por exemplo, esclarecer o cliente/paciente sobre o uso polêmico da hidroxicloroquina, recomendada por dois presidentes contrariamente à experiência de médicos e cientistas. O farmacêutico tem esse dever e esse direito?

Sim, o farmacêutico tem esse direito e todas as prerrogativas profissionais, incluindo o apoio do Conselho como entidade. 
As pessoas, de fato, procuravam uma solução. Mas a atitude de ambos os presidentes, Trump e Bolsonaro, ao indicar medicamentos não aprovados para esse fim, tem uma dose de irresponsabilidade. Mesmo que tenham notado efeitos positivos em si mesmos, não significa que isso se estenda a outras pessoas, sem falar nos comprovados efeitos colaterais. Esse falso debate atrasou a solução terapêutica do problema. E colocou a farmácia numa situação difícil. Mesmo quando orientadas no sentido de que não havia evidências de utilização contra a Covid, as pessoas insistiam em comprar – e muitos farmacêuticos sofreram assédios morais e ofensas de uma população perdida e assustada. Sabe-se hoje que a hidroxicloroquina não trouxe benefícios à prevenção ou ao tratamento da Covid-19, apenas riscos. Felizmente as pessoas acabaram aprendendo isso. 

A vacina é a única luz no fim do longo túnel da pandemia. E será preciso montar uma logística altamente complexa e inclusiva para a aplicação dos imunizantes. Farmácias e farmacêuticos, como defendeu o governador João Doria, deverão estar incluídos nessa estratégia de vacinação em massa como um serviço de saúde pública?

O governador João Doria está correto em classificar esse serviço como de saúde pública – portanto, sem custos para a população. E as unidades básicas de saúde não darão vazão à demanda. O governador citou escolas, campos de futebol e farmácias como pontos auxiliares de vacinação. Mas não acho que, num primeiro momento, as equipes das farmácias aplicarão a vacina. Dado o prazo exíguo para o início do processo, as farmácias, a meu ver, serão postos avançados, pontos de apoio, à vacinação. Profissionais extras deverão ser contratados, ou profissionais da rede pública deslocados para as farmácias. Nem todas as farmácias têm recursos para participar da campanha por seus próprios meios. De qualquer forma, realizamos há pouco um fórum online com várias entidades a respeito da vacinação. O ponto principal é que a vacinação é, sem dúvida, um trabalho de voluntariado. Queremos nos colocar à disposição do governador Doria. É um momento único na história mundial da saúde. 

Fora a vacinação e a pandemia em si, existem várias polêmicas, que já geraram conflitos e atritos, envolvendo a presença obrigatória do farmacêutico nas farmácias e drogarias – e os chamados serviços farmacêuticos. Como o CRF vê essa questão?

Serviços farmacêuticos, quando foram cogitados, eram voltados à farmácia hospitalar. Com o tempo, colegas começaram a levar os serviços clínicos a farmácias de varejo. Em princípio, é muito difícil conciliar as funções orientadoras do dia a dia no balcão com o exercício da farmácia clínica, atrás do balcão. Claro que não é uma consulta médica, mas esse é um modo diferenciado de fazer a dispensação. É claro também que não dá para fazer isso de graça. É um atendimento diferenciado, uma atenção especial ao paciente. Muitas farmácias estão no mesmo espaço há 20, 30 anos e não veem condições de oferecer esse serviço. Mas as empresas que já implantaram esse serviço de alguma forma cresceram financeiramente e profissionalmente – no caso do farmacêutico, isso acabou sendo um avanço. Vai acontecer com o tempo. Muitas farmácias que ainda focam na venda vão acabar entendendo que, para fidelizar e manter o cliente, é preciso oferecer algo mais. Temos apostado nisso. As grandes redes saíram na frente – e pequenas e médias vão acabar aderindo a esse conceito para poder competir no mercado. Não será fácil, mas vai acontecer. 

A questão da presença obrigatória do farmacêutico durante todo o período de funcionamento da farmácia ainda causa atritos com a fiscalização – no caso, por exemplo, de o farmacêutico ter saído para almoço ou ido ao banco. Como você vê isso hoje?

Temos procurado entender a situação das empresas e trabalhar isso da melhor maneira. No Brasil, ainda existem dificuldades para se contratar mais profissionais. Mas a presença do farmacêutico é indispensável. Historicamente, quando se introduziram os medicamentos industrializados nas farmácias, houve uma espécie de rejeição inicial por parte dos farmacêuticos, que antes os fabricavam artesanalmente. Isso criou a impressão de que bastava entregar os remédios nas mãos dos clientes. Mas, apesar de prontos e prescritos por um médico, medicamentos podem não fazer o efeito desejado e, ao contrário, produzir efeitos colaterais indesejáveis. Daí a presença permanente do farmacêutico. O acompanhamento farmacoterapêutico melhora os resultados, reduz os efeitos ruins e aumenta a adesão ao tratamento. Temos tido mais dificuldades em relação à presença do farmacêutico com as pequenas e médias empresas. Mas temos conversado e a situação, aos poucos, vai se ajustar. 

A telemedicina foi uma das tecnologias que
ganharam corpo durante a pandemia. A telefarmácia
é viável?

Isso vai acabar acontecendo. Precisamos apenas entender como isso pode ser feito: de que forma e de onde o profissional fará esse tipo de trabalho? De um modo ou outro, trabalhos de teleatendimento serão incorporados aos limites regulatórios das farmácias. Essa discussão também passa pelo modelo de negócios que as farmácias vão estabelecer pelos próximos anos. Como a profissão do farmacêutico caminha junto com o mercado, pretendo ter essa discussão com as entidades farmacêuticas. Não podemos fugir da nova realidade tecnológica. Em 2021, isso deve ser consolidado.

Você acha que a telefarmácia poderá vir a substituir legalmente a presença física do farmacêutico?

Não. Se o modelo de negócios permanecer em formato físico, não há a possibilidade dessa migração. As pessoas continuarão indo às farmácias e nem todas se darão ao trabalho de se postar diante de um computador ou de um celular para colher informações do farmacêutico. Temos que encontrar ainda o caminho ideal para isso, enquanto existirem farmácias físicas – daí nosso empenho para discutir o assunto com as entidades. 

Durante a pandemia, o CRF se transformou numa espécie de CRFV – Conselho Regional de Farmácia Virtual, com a oferta on-line de cursos, webinars e seminários, como o simpósio “Tendências farmacêuticas”, que reuniu sete mil profissionais. Essa é uma das tendências irreversíveis?

Quando assumi em 2018, minha ideia já era levar aos farmacêuticos conhecimentos e capacitações por via eletrônica, para atingir mais pessoas. Criamos algumas ferramentas, mas, no começo, isso caminhou a passos lentos. Com a pandemia, já tínhamos uma estrutura digital. Começamos pelas lives, depois webinars com profissionais de todas as áreas. E funcionou muito bem. Tivemos um webinar com 10 mil acessos pelo YouTube. O Simpósio Tendências foi um sucesso absoluto – as sete mil pessoas “presentes” foram quase o dobro da frequência média de nossos congressos presenciais. Em novembro de 2021, esperamos repeti-lo de forma on-line – com a expectativa de 20 mil pessoas. A ABCFARMA será convidada a participar. 

Tenho feito esta pergunta a todos os nossos entrevistados: como a pandemia impactou você, pessoalmente?

De todas as pessoas que eu conheço, quase todas na área da saúde, o que mais marcou foi o resgate da vida em família. Minha vida era acordar cedo, ir para empresa, ir para o Conselho, falar com os colegas, conversar com as entidades, planejar os eventos. Isso parecia não ter fim. Forçosamente, as coisas mudaram da noite para o dia. E, sem dúvida, uma maior preocupação com a vida. O isolamento e o medo do contágio de uma doença potencialmente mortal mexeram com as pessoas, com fortes impactos sobre a saúde mental. Descobrimos que o imprevisível, embora inevitável, pode acontecer.