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Nitazoxanida: no começo, o fim da Covid-19

Por Dr. Edimilson Migowski

 

Um estudo realizado com cerca de 400 pacientes no interior do estado do Rio, o chamado Protocolo de Volta Redonda, demonstrou que um conhecido vermífugo, vendido em farmácias e drogarias, é capaz de deter a evolução da temível doença se ministrado aos primeiros sintomas – evitando o agravamento e sequer a internação por Covid-19. Os resultados são promissores – e foram avalizados em outubro pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações. O orientador da pesquisa, Dr. Edimilson Migowski, professor de Infectologia Pediátrica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, falou com a ABCFARMA para esclarecer: afinal, isso representa a cura da Covid-19 em suas fases iniciais?

De acordo com as informações repassadas pela líder do estudo e também professora da UFRJ, Patrícia Rocco, o medicamento foi capaz de reduzir a carga viral em pacientes que receberam o tratamento. A redução da carga viral contribui para que quadros mais graves da doença não se manifestem – assim como para que os pacientes se tornem menos contagiosos, o que pode ser um alento enquanto as vacinas não se materializarem.

O tratamento precoce da Covid-19 pressupõe identificar a infecção precocemente. Isso é possível na maior parte dos casos? E é absolutamente necessário ter em mãos o diagnóstico da doença?

Lembrar que a Covid-19 é uma virose – e o quadro clínico inicial é de uma virose. Você tem mal-estar, dor no corpo. E, na minha experiência, sinais menos comuns, como dor no nariz, atrás do nariz, como se estivesse arrancando, nariz ressecado, boca seca, boca amarga, sensação de mau hálito, conjuntivite, dor na pele, diarreia, vômito, náuseas. A manifestação clínica é muito ampla, incluindo uma estranha sensação de febre sem elevação da temperatura. Se você tiver como pedir exames complementares, é bom. Mas não espero resultado para iniciar tratamento. Eu teria que pedir o teste PCR e aí ressalto dois problemas: demora até quatro dias para ficar pronto e eu perco aí o momento ideal para começar o tratamento com nitazoxanida. Segundo: estatisticamente, de 5 a 40% das pessoas comprovadamente infectadas testam PCR negativo. O teste é padrão ouro quando vem positivo. Negativo, pode não ser. Outro detalhe: como a nitazoxanida tem ação antiviral contra vários tipos de vírus respiratórios e intestinais, mesmo que não seja Covid, vou estar tratando o paciente também. Se achei que era virose, acertei, mesmo não sendo o novo coronavírus, e vou estar beneficiando o paciente.

A dobradinha “primeiros sintomas”/”administração de nitazoxanida” pressupõe sempre a intermediação de um médico? E se o paciente não encontrar um médico disposto a prescrevê-la?

Lembrar que a nitazoxanida é medicamento de tarja vermelha, não de venda livre. Embora não haja mais exigência de prescrição para essa categoria de medicamentos, não sou favorável à venda livre e à automedicação. O ideal é um médico para avaliar. Mas o Brasil tem muitos Brasis e muitos deles sem nenhum acesso a médicos. Daí a importância da telemedicina para orientar e prescrever. A dobradinha diagnóstico precoce-tratamento precoce é igual a não complicação, não internação e não morte. E isso é o que temos observado em nossa prática com relação à nitazoxanida e a Covid-19.

A chamada “assistência farmacêutica” é hoje uma das facetas de boa parte das farmácias e drogarias brasileiras. De que modo um farmacêutico bem informado pode participar do drama pessoal de um cliente de sua farmácia que acredita estar contaminado?

Um farmacêutico bem orientado pode, em municípios distantes que não contam com a presença física de um médico, avaliar essa dispensação junto a um profissional, por via remota, e até liberar o medicamento. Mas isso tem que ser discutido porque, repito, é medicamento de tarja vermelha.

No protocolo de Volta Redonda, a regra prescritiva é nitazoxanida 500 mg a cada oito horas, por seis dias – eventualmente, 7 a 8, a critério do médico. Se deu certo unanimemente no Protocolo de VR, não seria aceitável a automedicação?

Em relação ao Protocolo de Volta Redonda, realmente a medicação tem sido sucesso absoluto. Entre as pessoas que receberam precocemente a nitazoxanida e por um período médio de seis dias, não houve internação. Mas todos os pacientes são acompanhados por médicos. Se a pessoa achou que era uma virose, e era realmente uma virose, mesmo que de outro tipo, tudo bem. Mas e se for uma pneumonia bacteriana? Não dá para abrir mão do médico.

Poderia resumir os diferentes modos de ação da nitazoxanida contra o novo coronavírus?

Quando recomendo a nitazoxanida como molécula de escolha contra o Covid-19, tomo por base várias análises e referências. Essa molécula tem quatro mecanismos de ação contra o coronavírus. Os três primeiros promovem uma ação antiviral ampla – e não só contra o coronavírus, mas outros virus. O primeiro mecanismo é aumentar a produção de interferon, um antiviral natural que o corpo produz. O segundo é reduzir a produção de interleucinas – elementos que mediam a resposta inflamatória. Baixando sua produção, reduz-se a ação inflamatória. O terceiro mecanismo é o fato de a molécula entrar na célula e baixar sua produção de energia. O vírus se replica mal com células de baixa energia – que não são bons nascedouros de vírus. E o quarto mecanismo é mais específico do coronavírus – a inibição de uma enzima viral responsável pela proteína estrutural nas suas espículas, ou a coroa do vírus, o tal “corona”, que se ligam a novas células de forma defeituosa. Se esse vírus se formar, se formará “meia-boca” – e isso será ruim para o paciente, infectando mais células e mais pessoas.

Vocês têm alguma restrição a genéricos e similares da nitazoxanida? Ou preferem o medicamento de marca?

Estamos usando genéricos em Volta Redonda, onde tínhamos 381 pacientes até 14 de outubro, com uma farmacovigilância ativa, sem noticia de evento adverso. Temos ali portanto evidências clínicas de que os genéricos da substância se mostram seguros e eficazes. Se eu nada estivesse fazendo por esses quase 400 pacientes, levando em conta a letalidade histórica da Covid em Volta Redonda, eu teria talvez 20 óbitos e 80 internações nesse grupo. Não tendo nenhum caso, isso comprova a segurança dos genéricos.

Por que o Protocolo de VR ainda não foi estendido a dimensões mais amplas, eventualmente a outras populações, já que os resultados são animadores?

O Protocolo é um projeto previsto no convênio entre a prefeitura da cidade e a UFRJ, um ente público. Estamos buscando novas prefeituras para estender a outras cidades a experiência exitosa que tivemos em Volta Redonda. Quem tiver vontade ou interesse de conhecer esse convênio, é só me procurar. Em curtíssimo espaço de tempo, à luz do Ministério Público, essa parceria se estabelece.

foi testado o uso da nitazoxanida em fases mais avançadas da Covid-19?

Não tenho experiência na Covid avançada, grave. Há relatos de que o uso tardio não surtiu os efeitos desejados. A nitazoxanida atua como um colete à prova de balas após pessoa levar o primeiro tiro, não depois de todos os tiros. Como a ação dele é antiviral, reduzindo a replicação, a carga e a gravidade da doença, o ideal é usá-lo o quanto antes. Nossa experiência contempla no máximo até o terceiro dia dos primeiros sintomas.

A hidroxicloroquina se tornou o medicamento mais polêmico do país, pela defesa feita pelos presidentes Bolsonaro/ Trump e a contrapartida de estudos científicos, não avalizando esse entusiasmo. Algum risco de a nitazoxanida ser objeto das mesmas paixões?

Infelizmente houve uma politização da Covid-19. A hidroxicloroquina passou a gerar uma disputa política. Espero que isso não ocorra com a nitazoxanida. Neste caso, há fatos e dados auditáveis e mecanismos de ação bem conhecidos. A hidroxicloroquina ficou em xeque porque muitas pessoas têm receio de uma arritmia cardíaca, na associação dela com antibióticos, potencializando seu efeito cardiotóxico e aumentando o risco de parada cardíaca. Esse efeito não foi observado na nitazoxanida, medicamento já usado por 250 milhões de pessoas em todo o mundo, com alto perfil de segurança. Nos dados de Volta Redonda, nenhum efeito adverso foi percebido como grave. Pelo perfil das duas substâncias, muito diferentes entre si, essa possibilidade é improvável na nitazoxanida, se as pessoas que estiverem julgando foram isentas do ponto de vista político.

Em sua visão de infectologista com mais de 30 anos de experiência, quando uma vacina eficiente estará efetivamente disponível para todas as pessoas, encerrando de vez o ciclo mortal da Covid-19?

Uma vacina segura e eficaz deve surgir em 2021, mas achar que ela vai encerar o tema Covid-19 ainda é uma ilusão. Vai minimizar bastante, encerrar não. E eu não esperaria a vacina para retomar as atividades econômicas – com cuidado, sem relaxar, tendo em mente ainda os três pilares de contingenciamento da doença. Primeiro, distanciamento social, máscara, lavagem das mãos. Esse pilar não tem se mostrado suficiente para evitar tantas mortes – mas ainda é necessário. O segundo: ficar atento e levar a sério sinais e sintomas, evitando contaminar novas pessoas. Terceiro pilar: medicação precoce. No nosso Protocolo, o uso da nitazoxanida tão logo se desconfie de sintomas, independentemente dos exames complementares – para com isso minimizar a evolução mais grave da Covid-19.

Para encerrar: como esta pandemia ficará marcada em sua carreira? O que significa para um mestre da Infectologia conviver e intervir numa pandemia que só se repete de século em século?

Realmente a pandemia está marcando minha carreira. Desde janeiro de 2020 eu venho falando uma coisa que só teve eco meses depois. Falo da medicação precoce contra a Covid-19, com a nitazoxanida. Sou mestre em Pediatria, doutor em doenças infecciosas e professor de Infectologia Pediátrica da UFRJ. Tenho 36 anos de formado e 27 de professor dessa universidade. A cada dia que passa, tenho maior convicção de minha assertividade e das vidas que salvei ao orientar precocemente essa medicação, indo contra várias sociedades e especialistas. Sem medo de errar, digo que a Covid 19 foi a pandemia do medo, dos erros e das mortes evitáveis. Observei nessa pandemia pessoas felizes em contabilizar dor, sofrimento e morte, ao contrário de meu grupo, que se alegrou ao contabilizar vidas salvas e ausência de complicações, sequelas e mortes. A gente acertou em cheio e, quando entrei em rota de colisão com algumas pessoas, passei noites em claro pensando no que fazer. O fato de partir para o conflito foi a decisão humana mais acertada que tomei na vida.