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Mercado Farma: O impacto da Covid-19

As farmácias e drogarias brasileiras não fecharam suas portas um único dia desde o começo da pandemia – comprovando sua natureza de comércio essencial e de entrada do sistema brasileiro de saúde. Mas isso não quer dizer que todas as 80 mil farmácias brasileiras cresceram exponencialmente nesse período. O mercado tem suas facetas – e as variantes regionais e os efeitos impostos pela pandemia deixaram marcas nos números – como demonstram os números levantados pela Close-Up International, mega empresa de auditoria do mercado farmacêutico.

O varejo farma, num país de dimensões continentais como o nosso, é um mercado com múltiplas configurações, variáveis geográficas e comportamentos díspares e até incongruentes. Não podia ser diferente em época de quarentena imposta pela pandemia. Um dos “mapas” da Close-Up mostra que este ano perdemos 8.363 farmácias com baixo potencial de vendas: eram 86.116 em 2019 contra 81.539 em julho último, somadas as 3.786 novas lojas abertas este ano. É a primeira vez que isso acontece em cinco anos, mas isso tem uma justificativa lógica. A maior parte das farmácias que cerraram suas portas se localizavam em centros comerciais e shopping centers – que permaneceram fechados ou com liberação de certas lojas, como farmácias, mas drástica redução de público. Por outro lado, farmácias independentes, localizadas em bairros ou periferias, tiveram sugestivo aumento de movimento e faturamento, pela comodidade que oferecem a pessoas em isolamento social, perto de suas casas. De modo geral, o mês de março – primeiro de pandemia e quarentena – registrou uma explosão de vendas de certas categorias de medicamentos, sobretudo os MIPs relaciona- dos a estados gripais, fruto do desconhecimento pleno dos mecanismos infecciosos da Covid-19. Dados do CRF/MG mostram que as vendas do ácido ascórbico, popularmente conhecido como vitamina C, aumentaram em 191,52% nesse mês. Claro, a hoje famosa hidroxicloroquina, convencionalmente indicada para atrite reumatoide e lúpus, teve um crescimento de 75% quando a mídia passou a divulgar o depoimento de pessoas – inclusive nosso presidente – a favor de seus supostos efeitos benéficos contra a Covid-19. Nos meses seguintes, quando estudos científicos desestimularam o uso da hidroxicloroquina contra a pandemia e a Anvisa passou a exigir prescrição controlada para a compra desse produto, a venda caiu a níveis “normais”, pré-pandemia. Outros medicamentos de venda livre, como dipirona sódica, paracetamol e cole- calciferol (vitamina D), também fazem parte da lista dos remédios mais vendidos nos primeiros meses da pandemia. Outros levantamentos por empresas de consultoria apontam aumento de 180% nas vendas de vitamina C e de 35,6% da vitamina D nos três primeiros meses do ano no Brasil. Já os medicamentos contra insônia cresceram 40% no Espírito Santo e os ansiolíticos tiveram alta de 15% nas farmácias e drogarias do Rio de Janeiro somente em maio.

Mexendo com a cabeça

O aumento da procura por medicamentos contra insônia se concentra principalmente em substâncias naturais, como os fitoterápicos das famílias da passiflora, melissa e camomila – por- que, com o isolamento e a restrição de consultas com médicos por conta da pandemia, muitas pessoas não têm conseguido receituário médico, exigido para os medicamentos alopáticos dessa categoria. Aliás, pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) com cerca de 400 médicos de 23 estados e do Distrito Federal, correspondentes a 8% do total de psiquiatras do País, revela que 89,2% dos especialistas entrevistados destacaram o agravamento de quadros psiquiátricos em seus pacientes devido à Covid-19. O estudo mostra ainda que 67,8% dos médicos receberam pacientes que nunca haviam apresentado sintomas psiquiátricos antes. Outros 69,3% relataram ter atendido pacientes que já haviam recebido alta médica, mas que tiveram recidiva de seus sintomas. Outra pesquisa, feita pelo Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), apontou que os casos de depressão praticamente dobraram desde o início da quarentena. Entre março e abril, dados coletados on-line indicam que o percentual de pessoas com depressão saltou de 4,2% para 8,0%.

Mercado antes e depois do isolamento social

Por causa de tudo isso, quando surgiram as primeiras informações sobre a chegada do novo coronavírus ao Brasil, no início de março, as vendas no varejo farma dispararam – na primeira semana do mês, segundo a Close-Up, foram 132,2 milhões de unidades vendidas, 29,2 milhões a mais do que na última semana do mês de fevereiro. Após o início da quarentena, as unidades vendidas chegaram a um total de 191,9 milhões, o que representa o grande pico da história do mercado farmacêutico e a preocupação das pessoas com a pandemia que começava a ganhar forma. Já no mês de abril, houve um efeito rebote, pois a população passou a comprar menos. Na primeira semana de abril, foram vendidas 116,2 milhões de unidades. Na última, o total foi de 100,5 milhões. A primeira semana de maio revela uma tendência ao equilíbrio, pois foram comercializadas 117,9 milhões de unidades. Em relação às categorias – medicamentos com prescrição (MPX), medicamentos isentos de prescrição (MIPs) e não medicamentos (NMEDs) –, também é possível perceber a grande demanda no mês de março e a queda nos meses seguintes. Os MPX, por exemplo, na terceira semana de março, chegaram a um crescimento de 44,9%, quando na primeira semana foi de 9,8%. Ao compararmos com a última semana de abril, podemos ver que houve uma queda de 14,7%, deixando evidente a diferença de vendas. Na primeira semana de maio, as vendas voltaram a ficar positivas, com um crescimento de 2,7%. Os MIPs foram os produtos que mais cresceram durante o mês de março e os que menos caíram em abril. No terceiro mês do ano, alcançou o pico de crescimento de 180,6% e, no quarto, chegou a uma queda de 7,9%. Contudo, na primeira semana de maio, voltou a aumentar 14,5%. Como se disse no começo desta matéria, as farmácias independentes, bem como as associativistas, foram as que tiveram um melhor desempenho durante o período de isolamento social, enquanto as redes corporativas apresentaram quedas após um tempo.

As independentes alcançaram, em março, o pico de 83,9% no aumento das vendas. Em abril, tiveram seu pior momento, chegando a uma queda de 12,1%, enquanto na primeira semana de maio voltaram a crescer, chegando a alcançar 17% de aumento nas vendas.

Distribuindo saúde

Vinicius de Andrade, presidente da Abradilan, Associação Brasileira de Distribuição e Logística de Produtos Farmacêuticos, diz que o momento exige bastante atenção dos administradores do varejo farma, pois o mercado reage à pandemia de forma diferente a cada dia. Mas ele ressalta, mais uma vez, que não haverá desabastecimento de medicamentos. “As indústrias farmacêuticas são unânimes ao dizer que não haverá ruptura. Os laboratórios estão bem abastecidos. Pode ser que aconteçam pequenos atrasos em produtos de alta demanda, por conta do aumento da procura e não por falta de matéria-prima ou capacidade produtiva. A indústria farmacêutica tem feito uma força-tarefa importante para aumentar a produção de itens relacionados à prevenção e ao tratamento do Covid-19 visando atender o aumento da demanda. Temos itens cuja produção aumentou mais de 300% visando essa nova demanda que surgiu.”